domingo, 8 de dezembro de 2013

6- Amanhã agradeço aos vizinhos de cima

Com todas as voltas que a cabeça tem dado, ando a precisar de dormir. E hoje, depois de passar o dia a pensar se a cura tecnológica deu ou não resultado, decidi deitar-me mais cedo. À espera de um descanso longo e bom que ajudasse na convalescença...

Só não contava que os vizinhos de cima também decidissem ir para a cama fora de horas, e assim, após um primeiro gemido audível, o ritmo crescente do ranger da sua cama atirou-me à cara que mesmo que tivesse curado os males do coração, falhara completamente a cura do desejo de estar contigo outra vez.

Da vontade de repetir uma e outra e outra vez os nossos beijos únicos, de sentir as tuas pequenas mãos puxando-me para ti pedindo mais, de te mordiscar o pescoço e sentir-te entregares-te pouco a pouco... Daquele instante mágico em que todas as vezes me surpreendia com a beleza da tua nudez redescoberta, e de depois nos perdermos na paixão de mais uma noite em que pudemos estar juntos... E de colapsarmos, entrelaçados, mantendo apenas umas leves carícias de mãos, e saboreamos, sem pressas, o calor daquela paz pós desejo que só quem realmente se quer bem alcança, e que nunca será conseguida por quem apenas passa uma boa noite.

Desejo-te tanto ainda Andreia. A ti e a essa paz.

Mas não posso deixar-me continuar assim... Por cada noite mal dormida, a remoer no passado e no futuro que não vejo, sinto-me mais e mais próximo do limiar da loucura. Dividido entre tudo o que fiz para não chegar a ti, e tudo o que tentei depois para que nós acontecêssemos sem limites, estou cansado, farto e com medo de continuar a arrastar-me por aí.

Amanhã agradeço aos vizinhos de cima o empurrão, congratulo-os pelo vigor, e de seguida início dieta, reduzo a bebida, começo a fazer desporto, e sobretudo, passo a agir de forma apropriada a tratar do mal de coração e de todas as restantes dependências associadas.