Do fazer como bem me apeteceu, na areia molhada daquela praia fria, resultou o merecido castigo, no formato de uma forte gripe, suspeito mesmo que desenhada ao jeito das minhas defesas, para o sofrimento ser o mais profundo e prolongado possível: o meu crime é seguramente merecedor desse nível de atenção por parte de quem se encarrega destas coisas.
Com a gripe veio a febre e com a febre a agitação, neste dormitar sem dormir que dura já não sei há quanto. És ainda quem eu anseio Andreia. E entre espirros, sorrio ao ver-te trazeres-me um chá quente e de certeza com mel, e antecipo o teu aproximar... Mas num indesculpável fechar de olhos, é já a Vera, e não traz chá, mas canja, fez-la ela, e o dia é outro, que ela agora não sabe onde estou, e censuro-me por esta lembrança não procurada de outro dias de doença, em que ela mesmo tentando manter a sua imagem de distante e contrariada, deixava passar um pouco mais da sua bem escondida ternura ou, pelo menos, eu imaginava essa ternura melhor... E logo depois, desta vez não sei por que mudaram, não são vocês, é a Cláudia... Pelos vistos para além da gripe, a ida à praia, trouxe mais algum resultado, o adicionar de mais uma face ao meu delírio... E ela fala, e fala, e fala, e peço-lhe sem lhe dizer que se cale, que me deixe descansar, mas não me adivinhando o desejo, continua e insiste, e a seguir é a Vera que diz: vês, chamavas-me de distante e fria, mas agora também não aturas esta, que é uma melga, eu bem te disse que tinha razão, e depois tu, Andreia, vens e mandas calar as duas, e sorrio porque sei que o fazes para me ajudar, mas afinal não, logo dizes que quem tem razão és tu, mas dizes-lo triste, sem prazer de vencedora, porque a razão que tu sempre quiseste era a nossa, e a de estarmos juntos, no sofá outra vez, com a coberta por cima, constipados, e abraçados, e apesar de mal, tão bem... Repetes que tens tu a razão, e calam-se as duas, para te ouvirem dizer, que não está aqui ninguém porque eu, sendo como sou, as perdi todas...
E assim, ou porque me chamaste ainda mais uma vez à razão, ou talvez apenas por um aliviar da febre, vão-se realmente todas embora e fico só eu. Espirrando sozinho, em dor de tosse a mais e de febre, num sofrer a que me entrego, porque é o meu castigo, porque o mereço... Só que, no fim de um sequência de tosses mais longa, vem-me a dúvida de o merecer, ou pelo menos vem-me a dúvida de mesmo que merecida querer aceitar a punição. Sinto primeiro a vontade de vires tu para aqui, para junto de mim. Mas já tanto me faz, quero é alguém... Venha a Vera ou a Cláudia ou outro nome qualquer... Preciso de alguém. Não quero estar sozinho. Não quero sofrer mais sem ninguém... Já estou até quase convencido que nem o mereço...
E logo recomeça a agitação aquecida a febre, e dizem-me realmente todas que não vem. Todas não, só tu e a Vera. A Cláudia essa vinha. Viria sempre a Cláudia, onde quer que estivesse, ela gosta de mim, vocês é que nunca gostaram. Gosta nada! Ainda não se apercebeu é do risco que corre, ainda não conhece o cabrão que és, gritam vocês as duas, por uma vez em acordo. Mando-vos calar. Vocês sabem que eu não quis nada disto, que eu não sou assim, que aconteceu... Aconteceu seguido de dois palavrões diferentes, respondem-me de novo de acordo, se não nos insultos, na ideia, nunca vos imaginei assim unidas depois de tudo... As dores aumentam, mas não são já da tosse, são vocês, que entre gritos, me pontapeiam, me acusam de tudo, de mais e mais, e eu, em desespero, luto por vos afastar, tendo chegar ao telefone, e peço a custo, à Cláudia, que venha, que me traga algo, que estou mal, por favor, vens?
Do outro lado, inocente, sem de facto saber o risco que corre, diz-me só:
- Claro, fofinho. Vou já para aí.
Contenho o vómito, e fico à espera... De mais uma pobre vítima, acrescentam vocês, sentadas lá ao fundo, como duas viúvas mafiosas conspirando num velório.
Com a gripe veio a febre e com a febre a agitação, neste dormitar sem dormir que dura já não sei há quanto. És ainda quem eu anseio Andreia. E entre espirros, sorrio ao ver-te trazeres-me um chá quente e de certeza com mel, e antecipo o teu aproximar... Mas num indesculpável fechar de olhos, é já a Vera, e não traz chá, mas canja, fez-la ela, e o dia é outro, que ela agora não sabe onde estou, e censuro-me por esta lembrança não procurada de outro dias de doença, em que ela mesmo tentando manter a sua imagem de distante e contrariada, deixava passar um pouco mais da sua bem escondida ternura ou, pelo menos, eu imaginava essa ternura melhor... E logo depois, desta vez não sei por que mudaram, não são vocês, é a Cláudia... Pelos vistos para além da gripe, a ida à praia, trouxe mais algum resultado, o adicionar de mais uma face ao meu delírio... E ela fala, e fala, e fala, e peço-lhe sem lhe dizer que se cale, que me deixe descansar, mas não me adivinhando o desejo, continua e insiste, e a seguir é a Vera que diz: vês, chamavas-me de distante e fria, mas agora também não aturas esta, que é uma melga, eu bem te disse que tinha razão, e depois tu, Andreia, vens e mandas calar as duas, e sorrio porque sei que o fazes para me ajudar, mas afinal não, logo dizes que quem tem razão és tu, mas dizes-lo triste, sem prazer de vencedora, porque a razão que tu sempre quiseste era a nossa, e a de estarmos juntos, no sofá outra vez, com a coberta por cima, constipados, e abraçados, e apesar de mal, tão bem... Repetes que tens tu a razão, e calam-se as duas, para te ouvirem dizer, que não está aqui ninguém porque eu, sendo como sou, as perdi todas...
E assim, ou porque me chamaste ainda mais uma vez à razão, ou talvez apenas por um aliviar da febre, vão-se realmente todas embora e fico só eu. Espirrando sozinho, em dor de tosse a mais e de febre, num sofrer a que me entrego, porque é o meu castigo, porque o mereço... Só que, no fim de um sequência de tosses mais longa, vem-me a dúvida de o merecer, ou pelo menos vem-me a dúvida de mesmo que merecida querer aceitar a punição. Sinto primeiro a vontade de vires tu para aqui, para junto de mim. Mas já tanto me faz, quero é alguém... Venha a Vera ou a Cláudia ou outro nome qualquer... Preciso de alguém. Não quero estar sozinho. Não quero sofrer mais sem ninguém... Já estou até quase convencido que nem o mereço...
E logo recomeça a agitação aquecida a febre, e dizem-me realmente todas que não vem. Todas não, só tu e a Vera. A Cláudia essa vinha. Viria sempre a Cláudia, onde quer que estivesse, ela gosta de mim, vocês é que nunca gostaram. Gosta nada! Ainda não se apercebeu é do risco que corre, ainda não conhece o cabrão que és, gritam vocês as duas, por uma vez em acordo. Mando-vos calar. Vocês sabem que eu não quis nada disto, que eu não sou assim, que aconteceu... Aconteceu seguido de dois palavrões diferentes, respondem-me de novo de acordo, se não nos insultos, na ideia, nunca vos imaginei assim unidas depois de tudo... As dores aumentam, mas não são já da tosse, são vocês, que entre gritos, me pontapeiam, me acusam de tudo, de mais e mais, e eu, em desespero, luto por vos afastar, tendo chegar ao telefone, e peço a custo, à Cláudia, que venha, que me traga algo, que estou mal, por favor, vens?
Do outro lado, inocente, sem de facto saber o risco que corre, diz-me só:
- Claro, fofinho. Vou já para aí.
Contenho o vómito, e fico à espera... De mais uma pobre vítima, acrescentam vocês, sentadas lá ao fundo, como duas viúvas mafiosas conspirando num velório.