Cheguei à tua porta e bati. Por instantes, uma breve dor mais forte da memória da última vez que aqui tinha estado... Mas desta vez abriste sem demora e eu entrei.
"Desculpa, não queria..."
"Desculpa eu, fui tão ..."
E beijámo-nos. Como desde o nosso primeiro beijo, bem alcoolizado, naquela pequena ponte depois de jantar, os nossos lábios entenderam-se perfeitamente, dois bocados de uma mesma alma que, separados há muito, festejavam sem limites o reencontro... O mesmo desejo de então, a tua entrega, o sentir-me teu, mais e mais intensidade, e no aperto do nosso abraço o teu calor pouco a pouco a expulsar a dor que se tinha apoderado de mim... E uma felicidade nos últimos tempos impensada!
Um por um, subimos os degraus, sem nos largarmos, e entrámos no teu quarto, onde voltei a sentir-me, como sempre soube tão bem, tão em casa.... Despi-te lentamente, saboreando cada nova descoberta de pele, despiste-me também entre beijos, percorreste-me, percorri-te, e demos-nos numa mistura de desejo e de sonho que se julgou não mais ser repetido...
Pouco dissemos, ficámos ali abraçados, e adormecemos... Bem, adormeci... Porque mais tarde, algures a meio da noite, procuraste-me outra vez, não sei se tinhas dormindo ou não entretanto, e acordando aos poucos, respondi-te, entre um sorriso, lembrando todas as outras vezes em que te acordava eu, esperando sempre um deixa-me dormir, mas descobrindo-te sempre disposta...
Por fim, já de manhã, voltaste-me a acordar... Em pé, de robe, disseste secamente:
"Devias ir. Isto foi um erro."
Levantei-me... Vesti-me sem te responder, achei a última meia, mais teimosa como que não querendo aceitar, mas entregando-se vencida por fim, os sapatos, o casaco...
E um bater de porta sem raiva, só tristeza...
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
8- Desta vez sim, queria magoar-te...
É engraçado, quando a convidei para jantar não me passou pela cabeça, ou pelos menos não dei conta que tivesse passado, a ideia de te tentar magoar com isso. Era uma cura, uma libertação, um gozar que queria sentir merecido, o que pensava que procurava... Por isso, no dia seguinte ao almoço, estranhei quando a minha decisão foi a de almoçar no restaurante onde certamente estarias... Os encontros fortuitos também se podem fazer acontecer.
"Olá Bernardo. Já não te via por aqui há algum tempo..."
Senti o choque como se não te esperasse. Como é que a tua voz tem ainda esse poder em mim?
Disse-te olá, que era verdade, tinha andado por outros lados, e puseste logo aquele teu sorriso exagerado que quer dizer que sabes que algo mais se passa e que me devia deixar de tretas e ir directo ao assunto. Leste-me como sempre. Talvez por isso me assustaste tanto naqueles primeiros meses, talvez por isso foi sempre tudo verdade entre nós, não, ao contrário, porque tudo foi sempre verdade entre nós lês-me tão bem quando agora te minto.
"E então, como vai isso?" , conversa banal, e isto e aquilo, e um "Ontem fui jantar com a Cláudia.", dito sem qualquer ligação com o resto. E claro, se não sabias antes o detalhe, não tinhas agora dúvidas. Controlaste a reacção ainda durante duas ou três colheres de sopa, mas acabaste por explodir: "Dormiste com ela, é isso? Eu não acredito que... Bem até acredito. Que raio Bernardo!" E começaste a chorar. E eu não sabia o que fazer, quis te magoar sim, afinal qui-lo sempre desde que me apareceu na mente a ideia de a convidar para jantar, mas quanto te vi assim, agitada e a soluçar, não o queria já ter feito, esquece, não quis dizer nada, és tu que és tudo para mim, tudo... Só que nada disso sequer saiu da minha boca e fiquei só ali quieto, a ver-te, num silêncio que tinha tanto de sádico como de masoquista. Deixaste o prato a meio e foste embora.
"Precisámos de falar...", a tua mensagem chegou, no dia seguinte à noite, estava eu no café, com o Jorge e o Marco, já depois de umas quantas cervejas... Levantei-me. Pedi-lhes que me desculpassem, mas que precisava de ir. Conhecem-me há demasiados anos para ficarem chateados ou sequer fazerem perguntas... Nem paguei a minha parte, acerto com eles para a próxima. E lá fui, como um cachorro bem mandado, ter contigo.
"Olá Bernardo. Já não te via por aqui há algum tempo..."
Senti o choque como se não te esperasse. Como é que a tua voz tem ainda esse poder em mim?
Disse-te olá, que era verdade, tinha andado por outros lados, e puseste logo aquele teu sorriso exagerado que quer dizer que sabes que algo mais se passa e que me devia deixar de tretas e ir directo ao assunto. Leste-me como sempre. Talvez por isso me assustaste tanto naqueles primeiros meses, talvez por isso foi sempre tudo verdade entre nós, não, ao contrário, porque tudo foi sempre verdade entre nós lês-me tão bem quando agora te minto.
"E então, como vai isso?" , conversa banal, e isto e aquilo, e um "Ontem fui jantar com a Cláudia.", dito sem qualquer ligação com o resto. E claro, se não sabias antes o detalhe, não tinhas agora dúvidas. Controlaste a reacção ainda durante duas ou três colheres de sopa, mas acabaste por explodir: "Dormiste com ela, é isso? Eu não acredito que... Bem até acredito. Que raio Bernardo!" E começaste a chorar. E eu não sabia o que fazer, quis te magoar sim, afinal qui-lo sempre desde que me apareceu na mente a ideia de a convidar para jantar, mas quanto te vi assim, agitada e a soluçar, não o queria já ter feito, esquece, não quis dizer nada, és tu que és tudo para mim, tudo... Só que nada disso sequer saiu da minha boca e fiquei só ali quieto, a ver-te, num silêncio que tinha tanto de sádico como de masoquista. Deixaste o prato a meio e foste embora.
"Precisámos de falar...", a tua mensagem chegou, no dia seguinte à noite, estava eu no café, com o Jorge e o Marco, já depois de umas quantas cervejas... Levantei-me. Pedi-lhes que me desculpassem, mas que precisava de ir. Conhecem-me há demasiados anos para ficarem chateados ou sequer fazerem perguntas... Nem paguei a minha parte, acerto com eles para a próxima. E lá fui, como um cachorro bem mandado, ter contigo.
domingo, 5 de janeiro de 2014
7- E eu fiquei ali, a olhar para o tecto...
Acordei com a certeza de onde encontrar o medicamento perfeito para iniciar o tratamento receitado pelos vizinhos de cima. E assim, depois de ter evitado durante uns poucos meses os avanços da Cláudia, hoje quando cheguei ao trabalho vi-me a convidá-la para jantar. Nem esboçou um arriscado "Tens a certeza?", quanto muito alongou-se por um breve instante com uma hesitação de surpresa, seguido de um conclusivo "Claro!", acompanhado por um daqueles sorrisos, entre o irónico e o satisfeito, de quem finalmente ganhou...
Fomos jantar fora da cidade, ao restaurante italiano onde te levei, Andreia, naquele primeiro encontro nosso, por maximizar as hipóteses de não sermos vistos pelos nossos amigos... Ela foi sorrindo a noite toda, contou-me histórias daqui e dali, falou-me de sonhos, procurou envolver-me na conversa, fazer-me rir, e eu fui fazendo o meu papel de gigolô não pago. Sorrindo de volta, dizendo que sim, mostrando o entusiasmo que devia quando devia, e tentado afastar, sem grande sucesso, todas as lembranças boas da vez que ali tinha estado contigo.
Acabei por procurar a casa de banho para descansar. Atirei água para a cara, esfreguei os olhos e esforcei-me para reconhecer-me no espelho. Expliquei ao que me olhava do outro lado que estava tudo bem, para não hesitar, para ir em frente, que precisava da cura, e que não havia nada de mal em procurá-la assim.
Voltei à sala, mais vinho, resto de refeição, sobremesa, café, caminho até casa mantendo o papel, e um esperado "Queres entrar para um copo?"
Beijei-a assim que chegámos à sala. Entorpecido pelo vinho do jantar, desejei que a química fizesse o seu trabalho em modo quase automático e resisti somente à procura do quarto. Ficámos pelo seu tapete, deixei que me guiasse, e depois de um "Eu prefiro assim...", venceu. E eu fiquei ali, a olhar para o tecto...
Fomos jantar fora da cidade, ao restaurante italiano onde te levei, Andreia, naquele primeiro encontro nosso, por maximizar as hipóteses de não sermos vistos pelos nossos amigos... Ela foi sorrindo a noite toda, contou-me histórias daqui e dali, falou-me de sonhos, procurou envolver-me na conversa, fazer-me rir, e eu fui fazendo o meu papel de gigolô não pago. Sorrindo de volta, dizendo que sim, mostrando o entusiasmo que devia quando devia, e tentado afastar, sem grande sucesso, todas as lembranças boas da vez que ali tinha estado contigo.
Acabei por procurar a casa de banho para descansar. Atirei água para a cara, esfreguei os olhos e esforcei-me para reconhecer-me no espelho. Expliquei ao que me olhava do outro lado que estava tudo bem, para não hesitar, para ir em frente, que precisava da cura, e que não havia nada de mal em procurá-la assim.
Voltei à sala, mais vinho, resto de refeição, sobremesa, café, caminho até casa mantendo o papel, e um esperado "Queres entrar para um copo?"
Beijei-a assim que chegámos à sala. Entorpecido pelo vinho do jantar, desejei que a química fizesse o seu trabalho em modo quase automático e resisti somente à procura do quarto. Ficámos pelo seu tapete, deixei que me guiasse, e depois de um "Eu prefiro assim...", venceu. E eu fiquei ali, a olhar para o tecto...
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