segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

11- E hoje gosto assim!

Como um doente que volta ao médico para pedir ajuda depois de ter parado a medicação antes do tempo e a recaída ter batido forte, a meio da tarde falei a custo à Cláudia:
- Vamos dar uma volta?
- Agora? Assim? Ainda nem são horas...
- Anda lá!
- E onde vamos?
- Agarra o casaco e anda lá...


E fomos.  Na mota agarrou-se a mim com uma força que era óbvio nada ter a ver com a segurança,  com uma certeza de quem tinha voltado a encontrar o que queria... Do nosso trabalho à praia, eram uns vinte minutos, chegados, parei a mota e tirámos os capacetes, enquanto o Sol de Inverno avisava já que desapareceria em breve...

- Ah, praia, boa ideia...

As palavras tinham-me desaparecido outra vez. Lembrei-me do nosso pôr de sol, Andreia, numa outra praia também deserta, do prazer de nadar contigo, das brincadeiras debaixo de água, de te sentir salgada e fresca nos meus braços, do teu riso de cabelos molhados e de uma felicidade que ali, naquele mar só nosso, parecia ter existido sempre e...
- Está um bocado frio!
A Cláudia encostou-se a mim, levando-te para longe. Deixei-a estar por um nada e logo lhe fugi, em direcção à areia...
- A areia vai estar húmida, vamos molhar os pés...Eu sem palavras, ela, como sempre, com demais. Na areia já, o sol a tocar a água:
- Foi uma boa ideia. O pôr de sol está lindo, frio mas lindo...E beijei-a, ao menos assim não precisava de dizer nada. Respondeu-me a este primeiro beijo sem álcool, puxando-me contra si... Senti-lhe as mãos frias e veio-me a vontade que da outra vez não existira. Com o meu peso, forcei-lhe a queda na areia:
-Estás doido? Vamos ficar todos molhados...


E por fim, curou-se-me a mudez, primeiro sinal que a medicação já começava a funcionar:
- Desta vez fazemos como eu gosto Cláudia... E hoje gosto assim!




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

10- Roubaste-me as palavras todas...

Começaste aos poucos, nem sei bem quando... O certo é que, uma por uma, foste-as levando. Primeiro não dei por nada, a dada altura apercebi-me que as nossas conversas iam diminuindo, mais que em frequência, em conteúdo. E aí culpei-me... Tentei lutar contra a degradação progressiva do vocabulário, contra a repetição dos temas, por fim, procurei encontrar algo mais que os desculpa-me e os perdoa-me e os amo-te, com ou sem um inútil advérbio de quantidade. Mas nada funcionou.

E, hoje de manhã, apercebi-me finalmente que eras tu a ladra, quando, com o teu "Isto foi um erro", uma conclusão perfeita para esse teu crime,  me tiraste as últimas, um "Amo-te!", que não podia já dizer.

Não sei se as meteste todas nesse teu novo mundo, a adornar essa tua nova relação, se as deitaste fora por teimosia, ou se as desperdiçaste, esquecidas, a apodrecer inúteis num canto qualquer... O certo é que me deixaste mudo, eu que tinha sempre pelo menos um disparate a dizer, aqui deitado, olhando para todo o lado no escuro, à espera de descobrir por entre todos os gestos passados um que pudesse usar como entrada, uma pequena brecha nesse castelo que tão rapidamente construíste e fechaste, algo que pudesse ainda aproveitar para desfazer o que aconteceu, corrigir de alguma forma o percurso que nos trouxe aqui. Claro que tudo isso inutilmente... O tempo é assim, ao bater de cada segundo, destrói sem remorsos as hipóteses de recuperação dos outros,  firmando mais e mais a inutilidade do não terem feito nada ainda... Até que chega o dia em já ninguém pode mudar nada.

O telefone tocou.

Não atendi, não tinha como falar, porque tu Andreia, tu roubaste-me as palavras todas...