Começaste aos poucos, nem sei bem quando... O certo é que, uma por uma, foste-as levando. Primeiro não dei por nada, a dada altura apercebi-me que as nossas conversas iam diminuindo, mais que em frequência, em conteúdo. E aí culpei-me... Tentei lutar contra a degradação progressiva do vocabulário, contra a repetição dos temas, por fim, procurei encontrar algo mais que os desculpa-me e os perdoa-me e os amo-te, com ou sem um inútil advérbio de quantidade. Mas nada funcionou.
E, hoje de manhã, apercebi-me finalmente que eras tu a ladra, quando, com o teu "Isto foi um erro", uma conclusão perfeita para esse teu crime, me tiraste as últimas, um "Amo-te!", que não podia já dizer.
Não sei se as meteste todas nesse teu novo mundo, a adornar essa tua nova relação, se as deitaste fora por teimosia, ou se as desperdiçaste, esquecidas, a apodrecer inúteis num canto qualquer... O certo é que me deixaste mudo, eu que tinha sempre pelo menos um disparate a dizer, aqui deitado, olhando para todo o lado no escuro, à espera de descobrir por entre todos os gestos passados um que pudesse usar como entrada, uma pequena brecha nesse castelo que tão rapidamente construíste e fechaste, algo que pudesse ainda aproveitar para desfazer o que aconteceu, corrigir de alguma forma o percurso que nos trouxe aqui. Claro que tudo isso inutilmente... O tempo é assim, ao bater de cada segundo, destrói sem remorsos as hipóteses de recuperação dos outros, firmando mais e mais a inutilidade do não terem feito nada ainda... Até que chega o dia em já ninguém pode mudar nada.
O telefone tocou.
Não atendi, não tinha como falar, porque tu Andreia, tu roubaste-me as palavras todas...
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