Com todas as voltas que a cabeça tem dado, ando a precisar de dormir. E hoje, depois de passar o dia a pensar se a cura tecnológica deu ou não resultado, decidi deitar-me mais cedo. À espera de um descanso longo e bom que ajudasse na convalescença...
Só não contava que os vizinhos de cima também decidissem ir para a cama fora de horas, e assim, após um primeiro gemido audível, o ritmo crescente do ranger da sua cama atirou-me à cara que mesmo que tivesse curado os males do coração, falhara completamente a cura do desejo de estar contigo outra vez.
Da vontade de repetir uma e outra e outra vez os nossos beijos únicos, de sentir as tuas pequenas mãos puxando-me para ti pedindo mais, de te mordiscar o pescoço e sentir-te entregares-te pouco a pouco... Daquele instante mágico em que todas as vezes me surpreendia com a beleza da tua nudez redescoberta, e de depois nos perdermos na paixão de mais uma noite em que pudemos estar juntos... E de colapsarmos, entrelaçados, mantendo apenas umas leves carícias de mãos, e saboreamos, sem pressas, o calor daquela paz pós desejo que só quem realmente se quer bem alcança, e que nunca será conseguida por quem apenas passa uma boa noite.
Desejo-te tanto ainda Andreia. A ti e a essa paz.
Mas não posso deixar-me continuar assim... Por cada noite mal dormida, a remoer no passado e no futuro que não vejo, sinto-me mais e mais próximo do limiar da loucura. Dividido entre tudo o que fiz para não chegar a ti, e tudo o que tentei depois para que nós acontecêssemos sem limites, estou cansado, farto e com medo de continuar a arrastar-me por aí.
Amanhã agradeço aos vizinhos de cima o empurrão, congratulo-os pelo vigor, e de seguida início dieta, reduzo a bebida, começo a fazer desporto, e sobretudo, passo a agir de forma apropriada a tratar do mal de coração e de todas as restantes dependências associadas.
domingo, 8 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
5- Solução tecnológica
Estive perto de dizer ao funcionário da loja que os telemóveis se consertam bem mais depressa que os corações partidos. Para além da pirosice óbvia de tal frase, a verdade é que nisto dos telemóveis eles também aldrabam um bocado e não arranjam, encontram é um novo, depois transferem para lá o conteúdo todo do anterior, e esperam que tu sintas que é o mesmo! Bem mais complicado fazer isso com os corações.
Parvoíces à parte, cheguei a casa com o substituto do pobre coitado e liguei-o ao computador que, não indo nessa do telemóvel ser o mesmo, me pediu para transferir as fotos novas... Ainda meio lento por toda a bebida da noite passada, disse-lhe que sim sem pensar...
E foi então que, sem pagar, sem me sentar, sem as luzes se apagarem, e pior, sem pipocas, começou o filme. O dos últimos três anos. Uma por uma, ao serem transferidas e processadas, as fotos foram aparecendo e eu fiquei ali de pé, sem movimento. Primeiro eu, bem disposto a rir-me com a foto tirada por um telemóvel novo. Depois a Vera, rindo-se também de mais uma compra impulsiva minha. A seguir uma de eu a beijar a Vera, para testar como ficávamos com a nova câmara. E muitas mais, ora de mim, ora da Vera, ora dos dois, de lugares visitados, de outros países, de museus e estátuas assim assim, de garrafas de vinho para um dia voltar a beber e de tantas outras coisas, que trouxeram à memória todos aqueles dias bons que não me permitia recordar há muito tempo. Sentei-me. Nalgumas também lá estás, Andreia, quando ainda éramos todos amigos e partilhávamos noites bem dispostas. E, num de repente que ainda me choca quase tanto como na altura, aparecem as fotos dos dias maus com a Vera. Do outro lado de outros dias ainda piores, mais fotos de uma tentativa de voltar a ser feliz com ela. E depois fotos que me lembram quando desisti mesmo, ainda que sem ter dado logo por isso. Pouco a pouco menos fotos de mim e da Vera, mais e mais só dos amigos e das coisas. Bastante depois começam a surgir algumas diferentes de ti. Tiradas sem dar a entender que eram tiradas porque tu eras tu, e começavas a dizer tanto para mim. E por fim, menos e menos fotos de pessoas, mais de vinhos e de imagens da internet gravadas para te mandar... A seguir algumas, tão poucas porém tão alegres, dos nossos lugares Andreia, mas sempre sem a prova de lá termos estado juntos. E a última da Vera. E a última tua. E a última de uma banalidade qualquer.
Levantei-me, fui até ao computador, abri a pasta das fotos e apaguei-as todas. Fiz o mesmo no telemóvel.
E agora vou-me deitar, à espera que, amanhã quando acordar, o meu coração perceba que se as fotos já lá não estão, é porque ele devia estar consertado também.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
4- Eu estou bem! Agora o meu telemóvel...
Eventualmente apercebi-me que estava acordado, que o incómodo não era de sonho nenhum, e que enquanto não lhe desse atenção não voltaria a dormir. Ainda assim, insisti mais um pouco, numa teimosia que devia já saber inútil, e tentei convencer o corpo que podia adormecer e não precisava de me fazer levantar, nem nada disso... Mais uns minutos desperdiçados e, como das outras vezes, resignado, levantei-me por fim com a ajuda de um bom palavrão. Encontrei o equilíbrio suficiente, no meio de outras palavras menos próprias, e avancei, esperando não cair, nem acertar em nada mais frágil ou mais agressivo, até à casa de banho.
Lá lidei com o que tinha a lidar, bebi um pouco de água da torneira, numa esperança igualmente ridícula de reduzir a futura e merecida ressaca, e regressei entre passos alternados com mais palavrões ao quarto, onde, já deitado, palmeei a mesa de cabeceira à busca do telemóvel, querendo perceber quanto tempo ainda dispunha para dormir, ou melhor, quanto tempo ainda havia para ficar sóbrio antes do próximo dia de trabalho...
Disse-me o telemóvel que eram 3h37m e fez ainda, sem que lhe tivesse sido pedido, o favor de me comunicar que havia uma mensagem de Whatsapp à minha espera. Depois de uns poucos movimentos errados de polegar, enquanto lutava também para não deixar cair o aparelho e para manter os olhos abertos, lá cheguei à tua mensagem.
"Estás bem?" perguntaste-me algures antes do meu sono ser interrompido.
Para te dizer a verdade, não faço ideia quanto tempo demorou entre ler a mensagem e atirar o telemóvel contra a parede oposta do quarto. A pancada ecoou pela solidão desta casa e a alcatifa abafou o resto... Amanhã avalio os estragos, não me vou estar agora a levantar outra vez.
Por isso Andreia, obrigado pela preocupação, fico tocado por ainda te dares ao trabalho de escrever duas palavras, mas não te inquietes... Dorme tranquila junto a ele na tua cama de que tanto sinto falta, e deixa-me dormir descansado!
Eu estou bem!
Agora o meu telemóvel...
Lá lidei com o que tinha a lidar, bebi um pouco de água da torneira, numa esperança igualmente ridícula de reduzir a futura e merecida ressaca, e regressei entre passos alternados com mais palavrões ao quarto, onde, já deitado, palmeei a mesa de cabeceira à busca do telemóvel, querendo perceber quanto tempo ainda dispunha para dormir, ou melhor, quanto tempo ainda havia para ficar sóbrio antes do próximo dia de trabalho...
Disse-me o telemóvel que eram 3h37m e fez ainda, sem que lhe tivesse sido pedido, o favor de me comunicar que havia uma mensagem de Whatsapp à minha espera. Depois de uns poucos movimentos errados de polegar, enquanto lutava também para não deixar cair o aparelho e para manter os olhos abertos, lá cheguei à tua mensagem.
"Estás bem?" perguntaste-me algures antes do meu sono ser interrompido.
Para te dizer a verdade, não faço ideia quanto tempo demorou entre ler a mensagem e atirar o telemóvel contra a parede oposta do quarto. A pancada ecoou pela solidão desta casa e a alcatifa abafou o resto... Amanhã avalio os estragos, não me vou estar agora a levantar outra vez.
Por isso Andreia, obrigado pela preocupação, fico tocado por ainda te dares ao trabalho de escrever duas palavras, mas não te inquietes... Dorme tranquila junto a ele na tua cama de que tanto sinto falta, e deixa-me dormir descansado!
Eu estou bem!
Agora o meu telemóvel...
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
3- A nossa garrafa, bebi-a eu!
Cheguei a casa exausto e lancei-me sobre a cama à espera de um sono rápido.
Só que o cansaço, criado pelo peso da tristeza que me guiou durante todo o percurso de moto, foi rapidamente substituído, na ausência da distracção que tinha sido a necessidade de me manter na estrada, por uma fúria crescente. Primeiro contra mim, por ser um estúpido e um burro, e ter demorado tanto tempo sem saber porquê, e que estraguei tudo e te perdi. Depois contra ti, que não me ouviste, não conseguiste esperar mais uma vez, não percebeste que só podia ser teu, quando sei lá o quê, me deixasse ser mesmo teu. E a seguir contra os dois que deitámos tudo fora na nossa imbecilidade e casmurrice. Logo depois acusei-o a ele, que te rondou, se aproximou, te moeu pouco a pouco, que era só teu amigo, que isto e que aquilo, e que no fim ficou contigo por que se via que era isso que queria desde logo, e que o conseguiu, porque esteve sempre lá e te apoiou em tudo. E assim claro, contra mim outra vez, que não estive, que não te apoiei, que fui um verdadeiro cabrão que falhou uma e outra vez a data prometida. E contra ti que... E contra nós.. E contra ele... E contra mim...
E vendo-me a entrar em circulo e já sem a mínima esperança de adormecer, levantei-me para procurar numa qualquer bebida a dose certa de calmante, analgésico, soporífero e amnéstico.
Estava à espera do lado de lá da porta do armário: a garrafa de vinho que vimos quando fomos num dos nossos dois fim de semana completos juntos. A que hesitámos comprar, porque era bastante acima dos preços que costumávamos pagar, mas a que, sorrindo, chamámos bom investimento em época de crise, e que comprámos mesmo e prometemos beber quando finalmente estivéssemos juntos, sem barreiras.
A raiva explodiu e estive a um instante de atirá-la contra a parede... Felizmente, não sei se pela visão do que teria que limpar se o fizesse, ou se mais do que isso pela ideia do desperdício de bom dinheiro e de boas uvas, ou talvez pelo imaginar-te magoada por a beber sem ti, não o fiz. Procurei o saca-rolhas, e abri-a com a ira de todo um ano sem explicação.
E assim foi... A nossa garrafa, bebia-a eu! E estou agora a olhar ali para o single malt que te tinha comprado, porque gostas deles mais do que eu, e quer-me parecer que também não o vais chegar a provar, porque a fúria voltou a ser só tristeza, e a nossa garrafa não tinha analgésico que chegasse.
Só que o cansaço, criado pelo peso da tristeza que me guiou durante todo o percurso de moto, foi rapidamente substituído, na ausência da distracção que tinha sido a necessidade de me manter na estrada, por uma fúria crescente. Primeiro contra mim, por ser um estúpido e um burro, e ter demorado tanto tempo sem saber porquê, e que estraguei tudo e te perdi. Depois contra ti, que não me ouviste, não conseguiste esperar mais uma vez, não percebeste que só podia ser teu, quando sei lá o quê, me deixasse ser mesmo teu. E a seguir contra os dois que deitámos tudo fora na nossa imbecilidade e casmurrice. Logo depois acusei-o a ele, que te rondou, se aproximou, te moeu pouco a pouco, que era só teu amigo, que isto e que aquilo, e que no fim ficou contigo por que se via que era isso que queria desde logo, e que o conseguiu, porque esteve sempre lá e te apoiou em tudo. E assim claro, contra mim outra vez, que não estive, que não te apoiei, que fui um verdadeiro cabrão que falhou uma e outra vez a data prometida. E contra ti que... E contra nós.. E contra ele... E contra mim...
E vendo-me a entrar em circulo e já sem a mínima esperança de adormecer, levantei-me para procurar numa qualquer bebida a dose certa de calmante, analgésico, soporífero e amnéstico.
Estava à espera do lado de lá da porta do armário: a garrafa de vinho que vimos quando fomos num dos nossos dois fim de semana completos juntos. A que hesitámos comprar, porque era bastante acima dos preços que costumávamos pagar, mas a que, sorrindo, chamámos bom investimento em época de crise, e que comprámos mesmo e prometemos beber quando finalmente estivéssemos juntos, sem barreiras.
A raiva explodiu e estive a um instante de atirá-la contra a parede... Felizmente, não sei se pela visão do que teria que limpar se o fizesse, ou se mais do que isso pela ideia do desperdício de bom dinheiro e de boas uvas, ou talvez pelo imaginar-te magoada por a beber sem ti, não o fiz. Procurei o saca-rolhas, e abri-a com a ira de todo um ano sem explicação.
E assim foi... A nossa garrafa, bebia-a eu! E estou agora a olhar ali para o single malt que te tinha comprado, porque gostas deles mais do que eu, e quer-me parecer que também não o vais chegar a provar, porque a fúria voltou a ser só tristeza, e a nossa garrafa não tinha analgésico que chegasse.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
2- Vieste à porta, mas não estavas zangada...
Desliguei a mota e fiquei ali um pouco... No primeiro andar, a luz acesa e a janela da tua cozinha embaciada arrastaram-me sem resistência para outras noites.
Sinto-me tão parvo com a falta que me faz cozinhar para ti! Como sinto vontade de chegar outra vez a tua casa, com o saco do supermercado da esquina cheio de todos os ingredientes certos e de ver de novo o teu sorriso trocista - e mesmo assim tão terno - da minha mania de seguir à risca a receita decorada para te impressionar... De abrir o vinho, encher dois copos e brindarmos a dias em que possamos estar juntos todas as noites... Deixa-me ver, uma vez mais, a careta que fazes sempre que dás o primeiro gole, mesmo quando depois gostas da bebida... Abraça-me por trás, enquanto descasco as batatas e pede-me para te deixar ajudar, que talvez desta vez eu aceda... E enquanto o bacalhau está no forno, aceita dançar comigo ao som do quer que seja que esteja a dar, sempre da mesma maneira porque não sei mesmo dessas coisas, mas dás-me vontade de o fazer... E no final sorri, saciada e feliz, beija-me no sofá, diz-me como estava tudo, do que gostaste ou não, e gozemos a moleza pós jantar abraçados outra vez...
Um carrro trouxe-me de volta ao frio da rua, tirei o capacete e ganhei coragem para ir à tua porta. Quantas vezes a deixaste aberta, fosse a que hora fosse, para eu me juntar a ti, e gozarmos o tempo que pudéssemos da forma que nos apetecesse... Ainda imaginei a porta destrancada, mas hoje já tinha passado demasiado para que ainda a deixasses aberta. Respirei fundo e bati.
Demoraste, por fim espreitaste-me, abriste a porta, saiste e fechaste-a atrás de ti. Desejava ver-te feliz, esperava ver-te talvez zangada, mas mostraste-te como que embaraçada: "Que fazes aqui?!"
Precisava de estar contigo Andreia e dizer-te que és tudo para mim, ou um outro lugar comum qualquer, que será sempre incapaz de expressar o que sinto, e de pedir desculpa de novo, talvez desta vez me perdoes, e vejas que sim, que imbecilmente demorei, e desperdicei tanto tempo que devia ter sido só nosso, mas dei-me conta do disparate enorme que seria não sermos felizes juntos, e aconteça o que acontecer estarás sempre à frente de tudo daqui para a frente, e...
"Bernardo, eu não posso estar aqui..."
E foi como se as paredes ficassem transparentes e eu o visse, no andar de cima, a cozinhar qualquer coisa, não sei o quê, que a panela, essa continuou opaca e eu estava a olhar debaixo, mas a ele vi-o bem, à tua espera, do teu abraço ou quem sabe estaria quase na altura de um passo de dança?
Nem sei se te disse algo, ouvi o teu "desculpa", montei a moto e lá fui, enquanto as lágrimas me deixaram.
Sinto-me tão parvo com a falta que me faz cozinhar para ti! Como sinto vontade de chegar outra vez a tua casa, com o saco do supermercado da esquina cheio de todos os ingredientes certos e de ver de novo o teu sorriso trocista - e mesmo assim tão terno - da minha mania de seguir à risca a receita decorada para te impressionar... De abrir o vinho, encher dois copos e brindarmos a dias em que possamos estar juntos todas as noites... Deixa-me ver, uma vez mais, a careta que fazes sempre que dás o primeiro gole, mesmo quando depois gostas da bebida... Abraça-me por trás, enquanto descasco as batatas e pede-me para te deixar ajudar, que talvez desta vez eu aceda... E enquanto o bacalhau está no forno, aceita dançar comigo ao som do quer que seja que esteja a dar, sempre da mesma maneira porque não sei mesmo dessas coisas, mas dás-me vontade de o fazer... E no final sorri, saciada e feliz, beija-me no sofá, diz-me como estava tudo, do que gostaste ou não, e gozemos a moleza pós jantar abraçados outra vez...
Um carrro trouxe-me de volta ao frio da rua, tirei o capacete e ganhei coragem para ir à tua porta. Quantas vezes a deixaste aberta, fosse a que hora fosse, para eu me juntar a ti, e gozarmos o tempo que pudéssemos da forma que nos apetecesse... Ainda imaginei a porta destrancada, mas hoje já tinha passado demasiado para que ainda a deixasses aberta. Respirei fundo e bati.
Demoraste, por fim espreitaste-me, abriste a porta, saiste e fechaste-a atrás de ti. Desejava ver-te feliz, esperava ver-te talvez zangada, mas mostraste-te como que embaraçada: "Que fazes aqui?!"
Precisava de estar contigo Andreia e dizer-te que és tudo para mim, ou um outro lugar comum qualquer, que será sempre incapaz de expressar o que sinto, e de pedir desculpa de novo, talvez desta vez me perdoes, e vejas que sim, que imbecilmente demorei, e desperdicei tanto tempo que devia ter sido só nosso, mas dei-me conta do disparate enorme que seria não sermos felizes juntos, e aconteça o que acontecer estarás sempre à frente de tudo daqui para a frente, e...
"Bernardo, eu não posso estar aqui..."
E foi como se as paredes ficassem transparentes e eu o visse, no andar de cima, a cozinhar qualquer coisa, não sei o quê, que a panela, essa continuou opaca e eu estava a olhar debaixo, mas a ele vi-o bem, à tua espera, do teu abraço ou quem sabe estaria quase na altura de um passo de dança?
Nem sei se te disse algo, ouvi o teu "desculpa", montei a moto e lá fui, enquanto as lágrimas me deixaram.
sábado, 19 de outubro de 2013
1- Hoje fechei a porta à chave.
Hoje fechei a porta à chave, Andreia.
E sim, depois de todo este tempo, ainda a deixava aberta: o que começou com um honesto acreditar que virias naquela noite, que egoistamente eu via como a primeira depois de tudo, prolongou-se num insensata fantasia de esperar que um dia o havias de fazer.
Por entre todos os ruídos das noites duma casa onde se está só, imaginei vezes sem conta a tua pequena mão a rodar a maçaneta e a abrir aquela porta, ouvi os teus passos a subir as escadas e a percorrer a sala, hesitante, mas segura, e quis ver-te à entrada do meu quarto, olhando-me na cama e dizendo-me: "Sou tua!". Ensaiei a minha resposta "E eu teu!", desejei a frescura dos nossos beijos e o calor do nosso abraço, sonhei adormecermos num só novamente e um acordar lento e feliz, sem termos mais que sair desse momento...
Mas tu nunca vieste e, hoje, tranquei-a mesmo, Andreia...
Houve dias que a fechei sem querer, na distração de uma chegada a casa mais agitada, para logo a voltar a abrir à pressa, não fosses tu escolher aquele preciso instante para vires para nós... Outros em que desejei fechá-la com a raiva de mais um ruído no escuro que não eras tu, e muitos mais em que as lágrimas da nossa ausência me tiraram a energia para o fazer...
Mas hoje fechei-a com convicção...
Houve dias que a fechei sem querer, na distração de uma chegada a casa mais agitada, para logo a voltar a abrir à pressa, não fosses tu escolher aquele preciso instante para vires para nós... Outros em que desejei fechá-la com a raiva de mais um ruído no escuro que não eras tu, e muitos mais em que as lágrimas da nossa ausência me tiraram a energia para o fazer...
Mas hoje fechei-a com convicção...
Talvez por ir agora para uma outra casa, e precisar de acreditar na ilusão que mudando o espaço mudará também o coração... Talvez por estar cansado de todas as lágrimas, de todas as discussões, de todas as acusações, de tudo o que não poderemos mais mudar e tornar certo, porque foi feito como foi, e a única mudança possível só seria agora feita pelos nossos corações nas memórias desse passado e talvez mesmo só com a força de todas as memórias boas de um futuro que não sei já se teremos...
Hoje fechei a porta, Andreia, dei duas voltas à chave e fui-me deitar sozinho, sem te esperar mais...
E, quase logo, levantei-me, vesti-me, passei pela sala, hesitante, mas seguro, desci as escadas, destranquei a porta, abri-a, e fui ter contigo.
Hoje fechei a porta, Andreia, dei duas voltas à chave e fui-me deitar sozinho, sem te esperar mais...
E, quase logo, levantei-me, vesti-me, passei pela sala, hesitante, mas seguro, desci as escadas, destranquei a porta, abri-a, e fui ter contigo.
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