sábado, 19 de outubro de 2013

1- Hoje fechei a porta à chave.


Hoje fechei a porta à chave, Andreia.

E sim, depois de todo este tempo, ainda a deixava aberta: o que começou com um honesto acreditar que virias naquela noite, que egoistamente eu via como a primeira depois de tudo, prolongou-se num insensata fantasia de esperar que um dia o havias de fazer.

Por entre todos os ruídos das noites duma casa onde se está só, imaginei vezes sem conta a tua pequena mão a rodar a maçaneta e a abrir aquela porta, ouvi os teus passos a subir as escadas e a percorrer a sala, hesitante, mas segura, e quis ver-te à entrada do meu quarto, olhando-me na cama e dizendo-me: "Sou tua!". Ensaiei a minha resposta "E eu teu!", desejei a frescura dos nossos beijos e o calor do nosso abraço, sonhei adormecermos num só novamente e um acordar lento e feliz, sem termos mais que sair desse momento...

Mas tu nunca vieste e, hoje, tranquei-a mesmo, Andreia...

Houve dias que a fechei sem querer, na distração de uma chegada a casa mais agitada, para logo a voltar a abrir à pressa, não fosses tu escolher aquele preciso instante para vires para nós... Outros em que desejei fechá-la com a raiva de mais um ruído no escuro que não eras tu, e muitos mais em que as lágrimas da nossa ausência me tiraram a energia para o fazer...

Mas hoje fechei-a com convicção...
Talvez por ir agora para uma outra casa, e precisar de acreditar na ilusão que mudando o espaço mudará também o coração... Talvez por estar cansado de todas as lágrimas, de todas as discussões, de todas as acusações, de tudo o que não poderemos mais mudar e tornar certo, porque foi feito como foi, e a única mudança possível só seria agora feita pelos nossos corações nas memórias desse passado e talvez mesmo só com a força de todas as memórias boas de um futuro que não sei já se teremos...

Hoje fechei a porta, Andreia, dei duas voltas à chave e fui-me deitar sozinho, sem te esperar mais...

E, quase logo, levantei-me, vesti-me, passei pela sala, hesitante, mas seguro, desci as escadas, destranquei a porta, abri-a, e fui ter contigo.

Sem comentários:

Enviar um comentário