segunda-feira, 21 de outubro de 2013

2- Vieste à porta, mas não estavas zangada...

Desliguei a mota e fiquei ali um pouco... No primeiro andar, a luz acesa e a janela da tua cozinha embaciada arrastaram-me sem resistência para outras noites.

Sinto-me tão parvo com a falta que me faz cozinhar para ti! Como sinto vontade de chegar outra vez a tua casa, com o saco do supermercado da esquina cheio de todos os ingredientes certos e de ver de novo o teu sorriso trocista - e mesmo assim tão terno - da minha mania de seguir à risca a receita decorada para te impressionar... De abrir o vinho, encher dois copos e brindarmos a dias em que possamos estar juntos todas as noites... Deixa-me ver, uma vez mais, a careta que fazes sempre que dás o primeiro gole, mesmo quando depois gostas da bebida... Abraça-me por trás, enquanto descasco as batatas e pede-me para te deixar ajudar, que talvez desta vez eu aceda... E enquanto o bacalhau está no forno, aceita dançar comigo ao som do quer que seja que esteja a dar, sempre da mesma maneira porque não sei mesmo dessas coisas, mas dás-me vontade de o fazer... E no final sorri, saciada e feliz,  beija-me no sofá, diz-me como estava tudo, do que gostaste ou não, e gozemos a moleza pós jantar abraçados outra vez...

Um carrro trouxe-me de volta ao frio da rua, tirei o capacete e ganhei coragem para ir à tua porta. Quantas vezes a deixaste aberta, fosse a que hora fosse, para eu me juntar a ti, e gozarmos o tempo que pudéssemos da forma que nos apetecesse... Ainda imaginei a porta destrancada, mas hoje já tinha passado demasiado para que ainda a deixasses aberta. Respirei fundo e bati.

Demoraste, por fim espreitaste-me, abriste a porta, saiste e fechaste-a atrás de ti. Desejava ver-te feliz, esperava ver-te talvez zangada, mas mostraste-te como que embaraçada: "Que fazes aqui?!"

Precisava de estar contigo Andreia e dizer-te que és tudo para mim, ou um outro lugar comum qualquer, que será sempre incapaz de expressar o que sinto, e de pedir desculpa de novo, talvez desta vez me perdoes, e vejas que sim, que imbecilmente demorei, e desperdicei tanto tempo que devia ter sido só nosso, mas dei-me conta do disparate enorme que seria não sermos felizes juntos, e aconteça o que acontecer estarás sempre à frente de tudo daqui para a frente, e...

"Bernardo, eu não posso estar aqui..."

E foi como se as paredes ficassem transparentes e eu o visse, no andar de cima, a cozinhar qualquer coisa, não sei o quê, que a panela, essa continuou opaca e eu estava a olhar debaixo, mas a ele vi-o bem, à tua espera, do teu abraço ou quem sabe estaria quase na altura de um passo de dança?

Nem sei se te disse algo, ouvi o teu "desculpa", montei a moto e lá fui, enquanto as lágrimas me deixaram.




Sem comentários:

Enviar um comentário