quarta-feira, 27 de novembro de 2013

5- Solução tecnológica


Estive perto de dizer ao funcionário da loja que os telemóveis se consertam bem mais depressa que os corações partidos. Para além da pirosice óbvia de tal frase, a verdade é que nisto dos telemóveis eles também aldrabam um bocado e não arranjam, encontram é um novo, depois transferem para lá o conteúdo todo do anterior, e esperam que tu sintas que é o mesmo!  Bem mais complicado fazer isso com os corações.

Parvoíces à parte, cheguei a casa com o substituto do pobre coitado e liguei-o ao computador que, não indo nessa do telemóvel ser o mesmo, me pediu para transferir as fotos novas... Ainda meio lento por toda a bebida da noite passada, disse-lhe que sim sem pensar...

E foi então que, sem pagar, sem me sentar, sem as luzes se apagarem, e pior, sem pipocas, começou o filme. O dos últimos três anos. Uma por uma, ao serem transferidas e processadas, as fotos foram aparecendo e eu fiquei ali de pé, sem movimento. Primeiro eu, bem disposto a rir-me com a foto tirada por um telemóvel novo. Depois a Vera, rindo-se também de mais uma compra impulsiva minha. A seguir uma de eu a beijar a Vera, para testar como ficávamos com a nova câmara. E muitas mais, ora de mim, ora da Vera, ora dos dois, de lugares visitados, de outros países, de museus e estátuas assim assim, de garrafas de vinho para um dia voltar a beber e de tantas outras coisas, que trouxeram à memória todos aqueles dias bons que não me permitia recordar há muito tempo. Sentei-me. Nalgumas também lá estás, Andreia, quando ainda éramos todos amigos e partilhávamos noites bem dispostas. E, num de repente que ainda me choca quase tanto como na altura, aparecem as fotos dos dias maus com a Vera. Do outro lado de outros dias ainda piores, mais fotos de uma tentativa de voltar a ser feliz com ela. E depois fotos que me lembram quando desisti mesmo, ainda que sem ter dado logo por isso. Pouco a pouco menos fotos de mim e da Vera, mais e mais só dos amigos e das coisas. Bastante depois começam a surgir algumas diferentes de ti. Tiradas sem dar a entender que eram tiradas porque tu eras tu, e começavas a dizer tanto para mim. E por fim, menos e menos fotos de pessoas, mais de vinhos e de imagens da internet gravadas para te mandar... A seguir algumas, tão poucas porém tão alegres, dos nossos lugares Andreia, mas sempre sem a prova de lá termos estado juntos. E a última da Vera. E a última tua. E a última de uma banalidade qualquer.

Levantei-me, fui até ao computador, abri a pasta das fotos e apaguei-as todas. Fiz o mesmo no telemóvel.

E agora vou-me deitar, à espera que, amanhã quando acordar, o meu coração perceba que se as fotos já lá não estão, é porque ele devia estar consertado também.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

4- Eu estou bem! Agora o meu telemóvel...

Eventualmente apercebi-me que estava acordado, que o incómodo não era de sonho nenhum, e que enquanto não lhe desse atenção não voltaria a dormir. Ainda assim, insisti mais um pouco, numa teimosia que devia já saber inútil, e tentei convencer o corpo que podia adormecer e não precisava de me fazer levantar, nem nada disso... Mais uns minutos desperdiçados e, como das outras vezes, resignado, levantei-me por fim com a ajuda de um bom palavrão. Encontrei o equilíbrio suficiente, no meio de outras palavras menos próprias, e avancei, esperando não cair, nem acertar em nada mais frágil ou mais agressivo, até à casa de banho.

Lá lidei com o que tinha a lidar, bebi um pouco de água da torneira, numa esperança igualmente ridícula de reduzir a futura e merecida ressaca,  e regressei entre passos alternados com mais palavrões ao quarto, onde, já deitado, palmeei a mesa de cabeceira à busca do telemóvel, querendo perceber quanto tempo ainda dispunha para dormir, ou melhor, quanto tempo ainda havia para ficar sóbrio antes do próximo dia de trabalho...

Disse-me o telemóvel que eram 3h37m e fez ainda, sem que lhe tivesse sido pedido, o favor de me comunicar que havia uma mensagem de Whatsapp à minha espera. Depois de uns poucos movimentos errados de polegar, enquanto lutava também para não deixar cair o aparelho e para manter os olhos abertos, lá cheguei à tua mensagem.

"Estás bem?" perguntaste-me algures antes do meu sono ser interrompido.

Para te dizer a verdade, não faço ideia quanto tempo demorou entre ler a mensagem e atirar o telemóvel contra a parede oposta do quarto. A pancada ecoou pela solidão desta casa e a alcatifa abafou o resto... Amanhã avalio os estragos, não me vou estar agora a levantar outra vez.

Por isso Andreia, obrigado pela preocupação, fico tocado por ainda te dares ao trabalho de escrever duas palavras, mas não te inquietes... Dorme tranquila junto a ele na tua cama de que tanto sinto falta, e deixa-me dormir descansado!

Eu estou bem!

Agora o meu telemóvel...

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

3- A nossa garrafa, bebi-a eu!

Cheguei a casa exausto e lancei-me sobre a cama à espera de um sono rápido.

Só que o cansaço, criado pelo peso da tristeza que me guiou durante todo o percurso de moto, foi rapidamente substituído, na ausência da distracção que tinha sido a necessidade de me manter na estrada, por uma fúria crescente. Primeiro contra mim, por ser um estúpido e um burro, e ter demorado tanto tempo sem saber porquê, e que estraguei tudo e te perdi. Depois contra ti, que não me ouviste, não conseguiste esperar mais uma vez, não percebeste que só podia ser teu, quando sei lá o quê, me deixasse ser mesmo teu. E a seguir contra os dois que deitámos tudo fora na nossa imbecilidade e casmurrice. Logo depois acusei-o a ele, que te rondou, se aproximou, te moeu pouco a pouco, que era só teu amigo, que isto e que aquilo, e que no fim ficou contigo por que se via que era isso que queria desde logo, e que o conseguiu, porque esteve sempre lá e te apoiou em tudo. E assim claro, contra mim outra vez, que não estive, que não te apoiei, que fui um verdadeiro cabrão que falhou uma e outra vez a data prometida.  E contra ti que... E contra nós.. E contra ele... E contra mim...

E vendo-me a entrar em circulo e já sem a mínima esperança de adormecer, levantei-me para procurar numa qualquer bebida a dose certa de calmante, analgésico, soporífero e amnéstico.

Estava à espera do lado de lá da porta do armário: a garrafa de vinho que vimos quando fomos num dos nossos dois fim de semana completos juntos. A que hesitámos comprar, porque era bastante acima dos preços que costumávamos pagar, mas a que, sorrindo, chamámos bom investimento em época de crise, e que comprámos mesmo e prometemos beber quando finalmente estivéssemos juntos, sem barreiras.

A raiva explodiu e estive a um instante de atirá-la contra a parede... Felizmente, não sei se pela visão do que teria que limpar se o fizesse, ou se mais do que isso pela ideia do desperdício de bom dinheiro e de boas uvas, ou talvez pelo imaginar-te magoada por a beber sem ti, não o fiz. Procurei o saca-rolhas, e abri-a com a ira de todo um ano sem explicação.

E assim foi...  A nossa garrafa, bebia-a eu! E estou agora a olhar ali para o single malt que te tinha comprado, porque gostas deles mais do que eu, e quer-me parecer que também não o vais chegar a provar, porque a fúria voltou a ser só tristeza, e a nossa garrafa não tinha analgésico que chegasse.