Estive perto de dizer ao funcionário da loja que os telemóveis se consertam bem mais depressa que os corações partidos. Para além da pirosice óbvia de tal frase, a verdade é que nisto dos telemóveis eles também aldrabam um bocado e não arranjam, encontram é um novo, depois transferem para lá o conteúdo todo do anterior, e esperam que tu sintas que é o mesmo! Bem mais complicado fazer isso com os corações.
Parvoíces à parte, cheguei a casa com o substituto do pobre coitado e liguei-o ao computador que, não indo nessa do telemóvel ser o mesmo, me pediu para transferir as fotos novas... Ainda meio lento por toda a bebida da noite passada, disse-lhe que sim sem pensar...
E foi então que, sem pagar, sem me sentar, sem as luzes se apagarem, e pior, sem pipocas, começou o filme. O dos últimos três anos. Uma por uma, ao serem transferidas e processadas, as fotos foram aparecendo e eu fiquei ali de pé, sem movimento. Primeiro eu, bem disposto a rir-me com a foto tirada por um telemóvel novo. Depois a Vera, rindo-se também de mais uma compra impulsiva minha. A seguir uma de eu a beijar a Vera, para testar como ficávamos com a nova câmara. E muitas mais, ora de mim, ora da Vera, ora dos dois, de lugares visitados, de outros países, de museus e estátuas assim assim, de garrafas de vinho para um dia voltar a beber e de tantas outras coisas, que trouxeram à memória todos aqueles dias bons que não me permitia recordar há muito tempo. Sentei-me. Nalgumas também lá estás, Andreia, quando ainda éramos todos amigos e partilhávamos noites bem dispostas. E, num de repente que ainda me choca quase tanto como na altura, aparecem as fotos dos dias maus com a Vera. Do outro lado de outros dias ainda piores, mais fotos de uma tentativa de voltar a ser feliz com ela. E depois fotos que me lembram quando desisti mesmo, ainda que sem ter dado logo por isso. Pouco a pouco menos fotos de mim e da Vera, mais e mais só dos amigos e das coisas. Bastante depois começam a surgir algumas diferentes de ti. Tiradas sem dar a entender que eram tiradas porque tu eras tu, e começavas a dizer tanto para mim. E por fim, menos e menos fotos de pessoas, mais de vinhos e de imagens da internet gravadas para te mandar... A seguir algumas, tão poucas porém tão alegres, dos nossos lugares Andreia, mas sempre sem a prova de lá termos estado juntos. E a última da Vera. E a última tua. E a última de uma banalidade qualquer.
Levantei-me, fui até ao computador, abri a pasta das fotos e apaguei-as todas. Fiz o mesmo no telemóvel.
E agora vou-me deitar, à espera que, amanhã quando acordar, o meu coração perceba que se as fotos já lá não estão, é porque ele devia estar consertado também.