Cheguei à tua porta e bati. Por instantes, uma breve dor mais forte da memória da última vez que aqui tinha estado... Mas desta vez abriste sem demora e eu entrei.
"Desculpa, não queria..."
"Desculpa eu, fui tão ..."
E beijámo-nos. Como desde o nosso primeiro beijo, bem alcoolizado, naquela pequena ponte depois de jantar, os nossos lábios entenderam-se perfeitamente, dois bocados de uma mesma alma que, separados há muito, festejavam sem limites o reencontro... O mesmo desejo de então, a tua entrega, o sentir-me teu, mais e mais intensidade, e no aperto do nosso abraço o teu calor pouco a pouco a expulsar a dor que se tinha apoderado de mim... E uma felicidade nos últimos tempos impensada!
Um por um, subimos os degraus, sem nos largarmos, e entrámos no teu quarto, onde voltei a sentir-me, como sempre soube tão bem, tão em casa.... Despi-te lentamente, saboreando cada nova descoberta de pele, despiste-me também entre beijos, percorreste-me, percorri-te, e demos-nos numa mistura de desejo e de sonho que se julgou não mais ser repetido...
Pouco dissemos, ficámos ali abraçados, e adormecemos... Bem, adormeci... Porque mais tarde, algures a meio da noite, procuraste-me outra vez, não sei se tinhas dormindo ou não entretanto, e acordando aos poucos, respondi-te, entre um sorriso, lembrando todas as outras vezes em que te acordava eu, esperando sempre um deixa-me dormir, mas descobrindo-te sempre disposta...
Por fim, já de manhã, voltaste-me a acordar... Em pé, de robe, disseste secamente:
"Devias ir. Isto foi um erro."
Levantei-me... Vesti-me sem te responder, achei a última meia, mais teimosa como que não querendo aceitar, mas entregando-se vencida por fim, os sapatos, o casaco...
E um bater de porta sem raiva, só tristeza...
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