segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

8- Desta vez sim, queria magoar-te...

É engraçado, quando a convidei para jantar não me passou pela cabeça, ou pelos menos não dei conta que tivesse passado, a ideia de te tentar magoar com isso. Era uma cura, uma libertação, um gozar que queria sentir merecido, o que pensava que procurava... Por isso, no dia seguinte ao almoço, estranhei quando a minha decisão foi a de almoçar no restaurante onde certamente estarias... Os encontros fortuitos também se podem fazer acontecer.

"Olá Bernardo. Já não te via por aqui há algum tempo..."
Senti o choque como se não te esperasse. Como é que a tua voz tem ainda esse poder em mim?
Disse-te olá, que era verdade, tinha andado por outros lados, e puseste logo aquele teu sorriso exagerado que quer dizer que sabes que algo mais se passa e que me devia deixar de tretas e ir directo ao assunto. Leste-me como sempre. Talvez por isso me assustaste tanto naqueles primeiros meses, talvez por isso foi sempre tudo verdade entre nós, não, ao contrário, porque tudo foi sempre verdade entre nós lês-me tão bem quando agora te minto.
"E então, como vai isso?" , conversa banal, e isto e aquilo, e um "Ontem fui jantar com a Cláudia.", dito sem qualquer ligação com o resto. E claro, se não sabias antes o detalhe, não tinhas agora dúvidas. Controlaste a reacção ainda durante duas ou três colheres de sopa, mas acabaste por explodir: "Dormiste com ela, é isso? Eu não acredito que... Bem até acredito. Que raio Bernardo!" E começaste a chorar. E eu não sabia o que fazer, quis te magoar sim, afinal qui-lo sempre desde que me apareceu na mente a ideia de a convidar para jantar, mas quanto te vi assim, agitada e a soluçar, não o queria já ter feito, esquece, não quis dizer nada, és tu que és tudo para mim, tudo... Só que nada disso sequer saiu da minha boca e fiquei só ali quieto, a ver-te, num silêncio que tinha tanto de sádico como de masoquista. Deixaste o prato a meio e foste embora.

"Precisámos de falar...", a tua mensagem chegou, no dia seguinte à noite, estava eu no café, com o Jorge e o Marco, já depois de umas quantas cervejas...  Levantei-me. Pedi-lhes que me desculpassem, mas que precisava de ir. Conhecem-me há demasiados anos para ficarem chateados ou sequer fazerem perguntas... Nem paguei a minha parte, acerto com eles para a próxima. E lá fui, como um cachorro bem mandado, ter contigo.

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