sexta-feira, 8 de agosto de 2014

13 - Obrigado, disse-lhe...

Ao fim de uns dias, a febre desapareceu e fui acordado nessa manhã sem o leite com mel e restantes mimos ao pequeno almoço, a que me tinha habituado nos últimos dias.

- Está sol e já pareces melhor: hoje comes fora da cama.

E eu segui-a... Passando pela sala, tão exageradamente em ordem que nem a senti minha, cheguei à varanda do apartamento, onde a Cláudia pusera duas cadeiras roubadas à cozinha, e uma caixa a servir de mesa. Em cima, um dos naperons que a minha mãe me ofereceu há muito, e de que já nem me lembrava: onde é que ela o foi descobrir? E dois croissants com fiambre, junto a dois copos com sumo de maracujá, e a luz do sol da manhã a tornar tudo inegavelmente apetecível.

Parou-me a mente a pensar no perigoso da situação. Ali estava o meu medicamento insensato a procurar viciar-me com uma cena tirada de um daqueles momentos românticos de filme que me colhiam. As próximas palavras deveriam ser as minhas, mas deixei-me ficar na hesitação entre a dureza de um bruto desligar e a imbecilidade  de um errado aceitar de uma mensagem que eu não queria. Falou ela, que me sentasse e comesse e aproveitasse o sol, que me fazia bem apanhar um bocadinho. Quis dizer-lhe que me deixasse em paz, que queria estar sozinho e claro está, que não sou mal agradecido, obrigado sim por todos os pequenos-almoços na cama, mas que este era demais, mas a realidade é que este até era menos que os outros levados ao lado de lá enquanto eu estava mal e muito menos ainda de todos os outros cuidados que me deu.

Acabei por me sentar sem palavras, enquanto ela ia dizendo que estava contente de eu estar melhor, e que tinha estado mesmo com febre alta, que chegou a pensar que tinha que chamar um médico, e que tinha ido às compras porque não percebia como é que eu vivia aqui e não tinha nada na dispensa e que o que tinha no frigorífico estava tudo fora de prazo, menos o doce de tomate,  e que esperava que eu não me importasse, mas que depois disso, decidiu que também era boa ideia arrumar um bocado as coisas, e que acabou por aspirar tudo e limpar o quarto-de-banho, e fazer não sei o que mais, e pareceu-me até que algumas das coisas que decidiu fazer, eu nem sequer sabia que se podiam fazer, mas se calhar foi só porque estava ainda a recuperar destes dias todos de estar desligado, e a sobrecarga de informação era demasiada... Fui ouvindo, ou fazendo que ouvia o resto, mordendo o croissant em pequenos bocados, ao contrário do que era habitual. Nem percebi como soube que gostava de croissants, e com fiambre, e de maracujá, deve ter ouvido nalguma conversa solta e prestado atenção.


Obrigado, disse-lhe, quando já não tinha mais croissant para disfarçar a ausência de palavras. Ela sorriu-me, e a forma como o fez, deixou-me a duvidar se tinha dito mesmo obrigado, ou se me escapara uma mentira qualquer.

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