Cheguei a casa exausto e lancei-me sobre a cama à espera de um sono rápido.
Só que o cansaço, criado pelo peso da tristeza que me guiou durante todo o percurso de moto, foi rapidamente substituído, na ausência da distracção que tinha sido a necessidade de me manter na estrada, por uma fúria crescente. Primeiro contra mim, por ser um estúpido e um burro, e ter demorado tanto tempo sem saber porquê, e que estraguei tudo e te perdi. Depois contra ti, que não me ouviste, não conseguiste esperar mais uma vez, não percebeste que só podia ser teu, quando sei lá o quê, me deixasse ser mesmo teu. E a seguir contra os dois que deitámos tudo fora na nossa imbecilidade e casmurrice. Logo depois acusei-o a ele, que te rondou, se aproximou, te moeu pouco a pouco, que era só teu amigo, que isto e que aquilo, e que no fim ficou contigo por que se via que era isso que queria desde logo, e que o conseguiu, porque esteve sempre lá e te apoiou em tudo. E assim claro, contra mim outra vez, que não estive, que não te apoiei, que fui um verdadeiro cabrão que falhou uma e outra vez a data prometida. E contra ti que... E contra nós.. E contra ele... E contra mim...
E vendo-me a entrar em circulo e já sem a mínima esperança de adormecer, levantei-me para procurar numa qualquer bebida a dose certa de calmante, analgésico, soporífero e amnéstico.
Estava à espera do lado de lá da porta do armário: a garrafa de vinho que vimos quando fomos num dos nossos dois fim de semana completos juntos. A que hesitámos comprar, porque era bastante acima dos preços que costumávamos pagar, mas a que, sorrindo, chamámos bom investimento em época de crise, e que comprámos mesmo e prometemos beber quando finalmente estivéssemos juntos, sem barreiras.
A raiva explodiu e estive a um instante de atirá-la contra a parede... Felizmente, não sei se pela visão do que teria que limpar se o fizesse, ou se mais do que isso pela ideia do desperdício de bom dinheiro e de boas uvas, ou talvez pelo imaginar-te magoada por a beber sem ti, não o fiz. Procurei o saca-rolhas, e abri-a com a ira de todo um ano sem explicação.
E assim foi... A nossa garrafa, bebia-a eu! E estou agora a olhar ali para o single malt que te tinha comprado, porque gostas deles mais do que eu, e quer-me parecer que também não o vais chegar a provar, porque a fúria voltou a ser só tristeza, e a nossa garrafa não tinha analgésico que chegasse.
Muito bom!
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